sexta-feira, 8 de maio de 2020

Você voltar para o escritório? Pode ser que não.

Previsão de futuro é uma profissão de risco, mas na nossa opinião, muitas das pessoas que estão trabalhando em home-office vão continuar trabalhando em casa conforme a pandemia for melhorando e acabando e, na verdade, para sempre. Acompanhe comigo prezado leitor:

Eu adoro congestionamento
A troco do que você fica uma hora preso no trânsito pra ir, mais uma hora preso no trânsito para voltar, só para poder ficar algumas horas respondendo e-mails e dando telefonemas? Ou 40 minutos de metrô lotado pra ir e uma hora pra voltar (porque à tarde o metrô piora) só para revisar no Excel a previsão de vendas, ou o orçamento da filial?

Essa mecânica de ida e volta da casa para o trabalho foi criada para o operário da fábrica, que não pode trazer a prensa de metal para casa, ou para a época que computadores e linhas telefônicas eram caros e tinham que ser compartilhados entre vários funcionários do escritório.

Com o super-barateamento da informática, linhas telefônicas e de Internet, qualquer pessoa pode ter a computação e comunicação de um escritório em casa e fazer em casa, o que faz no escritório.

Eu adoro reunião
Ah, mas como fica aquela hora que todos os gerentes sentam no escurinho da sala de reunião, em volta daquela mesona, enquanto o diretor passa um interminável Power-Point com os planos infalíveis de dominação do mercado, válidos para o terceiro quartil do ano fiscal?

Desde o primeiro mês de quarentena já ficou claro que dá para recriar a mesmíssima dinâmica da sala de reunião com o Microsoft Teams, Zoom, Google Hangouts e similares, incluindo aí metade do público dormindo e a outra metade voando.

E para os poucos casos em que uma reunião é realmente a melhor forma de abordar um problema, o Teams também resolve, melhor que presencialmente, porque organiza e documenta automaticamente a troca de informação entre os participantes.

O seu diretor financeiro não é tonto
Os CFOs, controllers e similares podem ser (e são) acusados de muitas coisas ruins nas conversas em volta da máquina de café do escritório, mas uma coisa você tem que admitir: ninguém chega a uma posição dessa sendo bobo. E na planilha que eles olham todo dia, um das linhas mais no alto é a que contem o escorchante aluguel daquele belo escritório na Faria Lima, Berrini ou Paulista.

Sim, parte desse custo é marketing. É para impressionar visitantes com a portaria de mármore de pé direito triplo e a vista do Jóquei Clube que o 17º andar tem. Mas a maioria das atividades de qualquer empresa não precisa dessa vista. Se der para a empresa operar com esse espaço pela metade, um terço, ou talvez menos, os financeiros vão cortar. E a quarentena provou na prática que dá.

E antes que você pense que nossa argumentação não vale para a pequena empresa, cortar o aluguel do sobradinho onde ela fica é proporcionalmente tão bom para ela, ou até melhor, que a multinacional cortar o conjuntão no prédio envidraçado.

Mas se home-office é tão bom, porque não foi adotado antes?
A essa altura desse post o prezado leitor pode estar pensando: há alguns meses atrás, antes desse meteoro atingir a Terra, todas essas vantagens já eram verdade e todas essas ferramentas de Internet e computação já existiam. Por que a migração para home-office não aconteceu antes?

Na nossa opinião, a maioria dos executivos e empresários já via algumas das vantagens do home-office, e já vinha em alguns casos experimentando. Porém, temia fazer uma mudança radical. Arriscar virar de ponta cabeça uma mecânica conhecida, que estava funcionando há anos. Porém, gostando ou não, com medo ou não, a pandemia obrigou todos a fazer o teste, a aceitação e a implantação de uma tacada só.

Nem tudo são flores
Apesar de alguns bons resultados preliminares da migração maciça para o trabalho remoto, também algumas dificuldades estão ficando claras. Algumas são devidas à adoção forçada e apressada e não a problemas no conceito. Por exemplo "a velocidade da Internet na minha casa não é boa" ou "não tenho um escritório montado em casa".

Essa e outras questões operacionais e administrativas vão ser resolvidas rapidamente, conforme as pessoas e as empresas forem aprendendo, se adaptando e fazendo pequenos investimentos. E já está acontecendo. Uma empresa de nosso relacionamento contratou Internet mais rápida para a casa dos funcionários e outra enviou cadeiras de escritório mais confortáveis para seus funcionários em casa.

Outros problemas são mais complicados, como os pais com crianças pequenas de quarentena em casa. Eles precisam dividir seu tempo entre atividades de escritório, professor, babá e entretenimento infantil. Mas esse não é um problema do home-office, é um problema da quarentena das crianças. Se resolverá quando as escolas retomarem as atividades.

O animal social
Sério também é que, para muitas pessoas, o escritório era parte importante do convívio social, da interação humana. Na verdade, muitas pessoas passavam mais tempo com os colegas de escritório do que com quaisquer outras pessoas. Às vezes mais até do que com a família nuclear. Trabalhar em casa, que tira esse convívio, pode levar à melancolia ou até depressão.

O futuro não é mais o que era antes
Como dissemos no começo, previsão de futuro é uma missão arriscada. Pode ser que um remédio eficaz ou a vacina surjam mais rápido do que as expectativas. Pode ser que chegue logo a chamada "imunidade de manada" - ter tanta gente que já teve contato sintomático ou assintomático com o vírus que interrompa a transmissão. Se isso acontecer, é provável voltar com força o modelo de trabalhar todo mundo no mesmo escritório físico. Força do habito e do conhecimento.

Porém, quanto mais a saída da pandemia demora, mais as empresas estão vendo na prática o que funciona ou não no home-office. Também estão aprendendo e investindo em técnicas e ferramentas.  É provável que quando o perigo diminuir, muito do que estiver funcionando bem em home-office vá ficar, porque será mais prático e barato que trazer de volta para o escritório.

Dias melhores
Se esse futuro pós-pandemia com muita gente em home-office permanente se concretizar, a falta de socialização talvez possa ser combatida com atividades em grupo semanais ou quinzenais, no que restar do escritório central ou em locais para isso. Poderá ser o melhor de dois mundos. As vantagens do home-office - menos trânsito, menos poluição, mais tempo pessoal e para a família - sem abrir mão da saudável socialização com os colegas de trabalho.

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