quarta-feira, 17 de junho de 2020

Novo normal vai esvaziar (um pouco) as metrópoles?

Já que as empresas perceberam que o home-office veio para ficar, o próximo passo natural seria distribuir geograficamente a empresa: o gerente financeiro morar e trabalhar em Valinhos, a gerente de recursos humanos em Saquarema, um programador de software em Piracicaba o outro em Franca, enquanto a sede formal da empresa fica na Avenida Paulista.

Se as pessoas trabalham em home-office e conversam e se reúnem por teleconferência, sua localização não importa. As vantagens são gritantes: a empresa pode procurar talentos onde houver e o talento pode procurar trabalho onde houver.

Passado o desconforto com a quebra da tradição, com o "mas não é assim que as empresas sempre trabalharam", o trabalho distribuído pode se tornar uma revolução de eficiência e lucratividade tão grande quanto foi a do e-commerce nos últimos anos.

Porque você se amontoa com mais dez milhões de pessoas
Se perguntado diretamente, todo morador de grande metrópole responde que mora assim por causa dos bares e restaurantes, dos teatros, cinemas, shoppings, parques e outras opções de lazer, além do acesso a melhores hospitais e escolas. É comum a pessoa não citar, ou citar por último a razão mais importante: ganhar dinheiro.

Acontece que nas metrópoles há mais mercado para a maioria dos profissionais e empresas. Em busca dessas oportunidades de renda melhor as pessoas engolem o trânsito congestionado, o metrô e ônibus lotado, a poluição, os custos de vida e de moradia mais altos, a criminalidade e outros sapos da cidade grande.

Claro que atrás do dinheiro as vantagens da cidade grande se retroalimentam: tem mais escolas boas porque tem mais famílias com renda alta, tem mais bons hospitais porque tem mais gente com plano de saúde, tem mais shoppings porque tem mais gente com renda excedente para consumo e assim por diante.

O círculo virtuoso
Em um possível futuro de trabalho remoto / home-office, onde tudo que puder ser levado a este modelo o seja, poderia haver a contratação generalizada de funcionários fora da cidade-sede de cada empresa.

Com isso haveria uma diminuição do incentivo para as pessoas mudarem-se para a cidade grande e até criaria motivação para saídas de quem já mora lá. Também haveria uma consequente distribuição da renda para fora da regiões metropolitanas, que poderia levar os serviços - shoppings, escolas, hospitais, restaurantes, etc. - a ir atrás de onde está a renda, contribuindo para o êxodo.

Ao longo do tempo esse movimento poderia levar ao melhor dos dois mundos, as pessoas terem as oportunidades de trabalho e de renda da cidade grande, com qualidade de vida das cidade médias e pequenas. Sem prescindir de serviços de qualidade.

Devagar com o andor que o santo é de barro
Antes que o prezado leitor ache que eu estou deslumbrado com uma utopia de trabalho distribuído e a vida idílica da cidades pequenas e médias, permita-me listar as dificuldades para este cenário: primeiro, algumas atividades não podem ser fisicamente distribuídas. Os biólogos precisam ir ao laboratório, os técnicos de hardware precisam ir ao datacenter e muitas outras ocupações não são geo-independentes.

Depois, tem gente que gosta da muvuca. Há pessoas que preferem o convívio de um número enorme de outras pessoas, que a metrópole oferece. E por último, mas não menos importante, a maioria dos negócios não-digitais se beneficiam do adensamento populacional: ter mais potenciais clientes a uma menor distância.

Assim, mesmo que o trabalho remoto decole, um possível movimento de pessoas para fora das mega-cidades será moderado.

O animal racional
Se a sensatez fosse o motor do espírito humano, a esta altura do campeonato a maioria das empresas deveria estar avaliando quais atividades poderiam ficar no home-office para sempre e se não haveria pessoas talentosas e de melhor custo/benefício, moradoras de outras cidades, para contratos de trabalho remoto.

O mesmo bom senso estaria levando muitos profissionais a refletir se, no futuro próximo, não daria para negociar ter a mesma renda com trabalho remoto, trocando o apartamento apertado na capital por uma casa espaçosa com jardim e quintal no interior. E de quebra, parar de ter medo de ser assaltado cada vez que vai até a padaria.

No entanto, se as redes sociais são um termômetro do estado de espírito das empresas e seus empregados, a racionalidade tem sido atropelada pelo desejo de voltar logo para 2019, quando a gente era feliz e não sabia... Tenho visto mais posts na linha "Como promover a volta segura ao escritório" do que na direção contrária: "Como aproveitar essa deixa que já está muita gente em home-office para implantar de vez o trabalho distribuído".

A praia, a montanha e outros sonhos
A essa altura ainda é difícil avaliar se dessa vez o escritório geograficamente distribuído decola ou não e com ele algum esvaziamento das metrópoles. O que podemos dizer com certeza, é que nunca houve uma chance tão propícia para que isso aconteça.


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segunda-feira, 15 de junho de 2020

Novo normal: A área comercial ficará no home office?

Na nossa opinião, uma coisa já ficou clara: o home-office tem funcionado e por isso muita gente não vai voltar para o escritório. Porém há uma incerteza nesta estória: dá para vender no B2B sem sair de casa? As vendas empresariais podem funcionar sem a visita cara a cara do vendedor? A área comercial pode ficar no home office, como parece que muitas áreas ficarão?

Uma agradável surpresa
Em meio ao tsunami de más notícias da pandemia tem sobrado pouco espaço na mídia para se falar de uma coisa muito positiva que está acontecendo simultaneamente a toda essa desgraça: funcionou bem a transição de uma quantidade enorme de gente do escritório tradicional para o home-office.

Várias companhias como Facebook, Google, Microsoft, Amazon e Twitter já avisaram que vão esticar o período de home-office, independente de os governos permitirem volta. Falam em volta parcial ou em etapas aos escritórios para o final de 2020, outros para começo de 2021. Se essas empresas não estão com pressa em voltar assim que legalmente possível, é claro que o home-office está funcionando. O Twitter em particular já avisou que, para maioria dos seus funcionários, o home-office será para sempre.

E não são só as "Big Techs" - as maiores empresas americanas do Vale do Silício - que perceberam que home-office funciona.  Também muitos pequenos e médios escritórios lá e aqui no Brasil, dos mais variados ramos, desde escritórios de contabilidade até agências de marketing (um ramo que eu conheço bem 😃 ), tem tido a agradável surpresa de descobrir que com as pessoas trabalhando na casa delas a empresa continua funcionando perfeitamente.

A lanterna na popa
Esse que vos escreve já tem muita experiência no mundo do marketing e das vendas e assistiu muitas mudanças de cenário, em particular o crescimento do marketing e vendas pela Internet. No entanto ao longo desse tempo todo houve uma coisa que permaneceu constante: a necessidade do contato presencial para as vendas B2B, (business to business, de empresa para empresa).

A sala de reunião, o aperto de mãos, a troca de cartões tem sido fundamentais no estabelecimento de relações entre empresas. Depois de estabelecida a relação, às vezes as vendas subsequentes até são feitas por telefone, e-mail ou quase automaticamente por programação, mas a tradição da presencialidade no estabelecimento da relação, ou no fechamento de negócios maiores, nunca foi quebrada nos anos em que acompanhamos essas questões.

Porém, como dizia o saudoso economista Roberto Campos, a experiência é uma lanterna na popa do barco. O futuro sempre está na sua proa, no escuro.

O Zap, o Zoom e outras higiênicas ferramentas começadas por Z
Será que as ferramentas de teleconferência serão capazes de substituir a reunião presencial de vendas? Será que na tela do Whatsapp conseguiremos ler todos os sinais não verbais que ajudam a balizar uma negociação? Será que a tela do Microsoft Teams vai conseguir incutir a imponência e a intimidação da mesona no 21º andar, com vista para a Ponte Estaiada? E será que precisa?

Se você costuma vir a esse blog procurando certezas, essa é uma das vezes que não sairá satisfeito. Acreditamos que muitas atividades das empresas não voltarão do home office quando isso for seguro, porque o home office provou que funciona, é mais barato e melhora a qualidade de vida da maioria dos funcionários. Mas para as vendas B2B é difícil julgar se pode funcionar à distância. O que o prezado leitor acha?

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