terça-feira, 14 de agosto de 2018

5 tipos de Fake News - 2) A narrativa

Uma forma sutil de "Fake News" é, a partir de fatos verídicos, contar a história de um jeito - criar uma narrativa - que leve as pessoas a imaginar o que aconteceu de acordo com os interesses de quem está contando a história. Embora os fatos propriamente ditos possam não ser fake-falsos, a tentativa de direcionar as opiniões sobre eles coloca algumas narrativas dentro do fenômeno geral de Fake News. Inventar um fato que não aconteceu, uma mentira e publicar na Internet - como descrevemos no primeiro post desta série - é uma forma mais simplista de agir e mais fácil de ser percebida ou checada do que a Fake de narrativa, que vamos descrever a seguir.

A Fake News de narrativa se manifesta basicamente de duas formas, normalmente usadas em conjunto. Primeiro com uma cuidadosa escolha de partes da verdade: se alguém contar só as coisas ruins que você fez na vida - as pisadas na bola, os enganos, as decisões questionáveis, aquelas vezes que você perdeu a cabeça - o ouvinte vai ficar com uma péssima opinião a seu respeito. Se se contar só as coisas boas - realizações profissionais ou pessoais - a opinião do ouvinte será outra, embora nos dois casos só se conte fatos reais. Essa curadoria tendenciosa pode ser feita contra (ou a favor) de pessoas físicas ou jurídicas e instituições públicas ou privadas.

Segundo, uma cuidadosa escolha das palavras com que se vai descrever a verdade que está sendo contada: se eu disser que você "deu um tapinha no bumbum do seu filho sapeca" parece uma coisa, se eu disser que você "foi violento com uma criança indefesa" parece outra.

 A Fake News de narrativa talvez seja a forma mais comum de se tentar manipular uma audiência e não é uma novidade da Internet. Embelezar ou enfeiar os fatos acontece desde que os homens da caverna contavam histórias em volta da fogueira. Porém, a Internet acrescentou alguns graus de perniciosidade a essa prática: é muito fácil qualquer pessoa editar um vídeo ou texto real para uma versão mais adequada à uma narrativa. Por exemplo, recortar de um debate na TV só os momentos do debate em que o político que a pessoa apoia foi bem, ou os momentos que o político que ela desaprova foi mal. Também é muito fácil distribuir essa versão para muitas outras pessoas via redes sociais de forma anônima ou quase, diminuindo a possibilidade de responsabilização do autor.

Além disso, a Internet é uma grande guerra por atenção. Com as gigantescas quantidades de conteúdo que são publicadas todos os dias, muitos produtores de conteúdo recorrem ao sensacionalismo para tentar atrair a atenção. Um link moderado tem menos chance de ser clicado (e até de ser visto) que um mais carregado nas tintas, então as narrativas vão ficando com menos nuance. Entre "Candidato X expõe suas diferenças em entrevista" e "Candidato X arrasa com adversários em entrevista bomba", muita gente vai cair na isca e clicar na segunda chamada.

Com tudo isso, além de mentiras propriamente ditas, você vai encontrar na Internet muitas versões  - narrativas - que contam só um lado da história e de forma exagerada, que podem não ser ao pé da letra totalmente fake - falsas, mas sua distorção da verdade -escolher partes dela e o jeito tendencioso de contar - permite as incluir conceitualmente no fenômeno geral das Fake News.


Esse é o segundo post de nossa série sobre Fake News. Acompanhe os próximos posts neste blog quando falaremos de outros tipos de Fake News.


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