quinta-feira, 11 de abril de 2019

A briga pelos algorítimos das redes sociais e de pesquisa

Dois senadores americanos acabaram de propor uma lei - chamada Algorithimic Accountability Act (Lei de Responsabilização pelos Algorítimos) - que permitirá aos órgãos reguladores do governo americano analisarem e regularem os "os procedimentos automáticos de decisão" de sites e aplicativos usados pelos consumidores, para tentar identificar e controlar possíveis preconceitos, violações de privacidade e outros riscos.

Essa proposta de lei vem ao encontro de um tema quente de debate no mundo todo: como é que cada algorítimo escolhe o que cada pessoa vai ver na Internet. (Algorítimo é o nome técnico para qualquer procedimento automatizado, porém nesse contexto  é usado para se referir ao procedimento de filtragem, feito pelos sites e aplicativos da Internet, para escolher o que cada pessoa vai ver na sua tela).

Exemplificando: quando eu ponho "notícias de Brasília" na caixa de pesquisa do Google, como é que ele escolhe o que ele vai me mostrar, e em que ordem de importância? Ou quando eu entro no Facebook, das milhares de coisas publicadas por centenas de amigos, como ele escolhe quais ele vai me mostrar na linha do tempo e em qual ordem? Ou ainda, quando eu estou assistindo um vídeo no YouTube, como ele escolhe a lista de próximos vídeos que ele me oferece para assistir em seguida?

Não é preciso muita reflexão para perceber a influência que podem ter sobre a opinião pública e até no funcionamento geral da sociedade, esses procedimentos de filtragem e priorização de praticamente toda a informação que as pessoas acessam. Um sutil aumento da exibição de notícias ou informações favoráveis ou contrárias a uma ideia, pessoa, serviço, produto ou instituição podem esterçar a opinião pública a respeito. As grandes empresas do setor afirmam que fazem  essas filtragens apenas visando "a melhor experiência" de quem usa. Mas o que define essa "melhor experiência"? Na prática esses algorítimos são grandes caixas pretas. Agora o governo americano quer atuar nesta questão.

Como era de se esperar os dois lados do espectro político, esquerda e direita, Democratas e Republicanos, tem visões diferentes do problema. Para os Democratas o primeira questão a ser abordada é a dos anúncios (cuja exibição também é controlada por algorítimos). Sua exibição ou não poderia sofrer vieses pré-conceituosos, por exemplo os algorítimos não mostrarem um anúncio para uma pessoa por questões de raça, gênero ou condição social, o que poderia negar o acesso dessa pessoa a uma oportunidade de emprego, empréstimo ou moradia.

Já o Republicanos estão mais preocupados num primeiro momento com possíveis ataques à liberdade de expressão. Há denúncias que conteúdos de direita ou conservadores tenham sido censurados pelos algorítimos: conteúdo com esse viés ideológico apareceria para um número menor de pessoas e/ou iria para o fim da página. Também há denúncias de "desmonetização": os algorítimos teriam desabilitado alguns conteúdos conservadores a receber dinheiro pelos acessos, estrangulando economicamente os seus criadores. A suspeita dos Republicanos é que as pessoas do Vale do Silício (região onde ficam as sedes das maiores empresas de Internet), majoritariamente democratas, possam estar calibrando os algorítimos para furtivamente censurar a direita e apoiar a esquerda.

Seja por motivos destros ou canhotos 😉, se a lei passar, pode ser benéfico para a sociedade um maior conhecimento e controle sobre os algorítimos das redes sociais, mecanismos de busca, grandes sites de compras e outros serviços de Internet de grande aceitação (a lei proposta no senado americano prevê atingir qualquer serviço de Internet que mantenha registro de mais de 1 milhão de usuários). Hoje, todos os serviços de grande consumo, por exemplo água, energia, transportes ou telefonia estão sujeitos a controles, fiscalização e regulamentação dos governos, visando proteger os indivíduos e a sociedade. A ideia é esse modelo chegar mais firmemente aos serviços de Internet também.




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